A Nova Epidemia

Posted on Dec 10, 2013

Você sabia que, neste instante, estamos em meio a uma epidemia que já é pelo menos 100 vezes mais predominante que a temida epidemia de poliomielite dos anos 50? A maioria das pessoas não sabe disto. Esta ignorância ilustra: o caráter de novidade desta doença; as baixas expectativas que temos em relação à saúde humana; e a atomização da comunidade que transformou a doença em uma questão privada.

 O mito de ascenção nos faz pensar que a tecnologia já conquistou quase todas as grandes epidemias virais que um dia nos fizeram reféns. Ah, sim, ainda há algumas poucas doenças virais que ainda não sucumbiram, mas no geral nós exterminamos as mais terríveis doenças fatais. E com a pesquisa contínua, as doenças remanescentes como a gripe, a AIDS e mesmo o resfriado comum irão eventualmente sucumbir ao mesmo programa de vacinação que exterminou a polio, a difteria e a varíola.

 Na verdade, é bastante discutível se foram as vacinas e antibióticos  que acabaram com as grandes epidemias do século XIX. De acordo com Ivan Illich, “as taxas combinadas de morte por escarlatina, difteria, pertússis e sarampo entre as crianças e jovens de até 15 anos revelam que aproximadamente 90% do declínio total na mortalidade entre 1860 e 1965 ocorreu antes da introdução dos antibióticos e da vacinação estendida” (Medical Nemesis, pág. 16). Talvez a maior parte deste avanço tenha sido devido a melhorias nas condições de higiene e na atenuação natural da virulência infecciosa no organismo ao passo em que ela evolui para um estado de equilíbrio com as espécies hospedeiras.

Se o desaparecimento generalizado das velhas epidemias é ou não um triunfo da medicina moderna, enfrentamos hoje uma vasta nova forma de epidemia. Não se trata de uma nova epidemia em potencial, nem outra crise de gripe. As doenças infecciosas são epidemias do passado. Não, eu estou falando sobre uma epidemia que já está em andamento, afetando primeiramente jovens. Estou falando da epidemia de doenças auto-imunes, ou, num sentido mais amplo, a epidemia de disfunções do sistema imunológico humano.

Em primeiro lugar, dentre as novas doenças autoimunes, está o autismo. Suas causas e efeitos são complexos, e envolvem envenenamento com mercúrio e outros metais pesados, ruptura na ecologia do organismo, falhas no sistema imunológico e um ataque do próprio sistema imunológico contra as estruturas do cérebro. Outrora uma doença rara que afetava 1 em cada 10.000 crianças nos anos 70, a taxa aumentou para 1 em cada 150 nos dias de hoje, sem indícios de diminuição. Isto não é uma disfunção de menor importância. Leia a descrição de um pai.

“Eu me lembro de quando o João oscilava na sala de estar…
quando ele não respondia…
quando ele ficava lá fora apenas a sentir o vento soprando sobre ele…
quando eu engavetei todos os álbuns de fotos  porque eu não conseguia mais olhar para o João primeiro como um bebê e agora como alguém que parecia um refugiado de guerra.”

Aqui vai outro depoimento:

“Eu me lembro dos três meses, quando minha mãe veio nos visitar. Eu estava dando de mamar ao David e, como sempre, estava interagindo com ele verbalmente e através do contato visual. David conseguia imitar meus gu-gu-da-das e as risadinhas naquela idade. Minha mãe dizia, ‘eu tenho certeza que logo logo esse menino irá começar a falar’. Com um ano o David estava falando e interagindo verbalmente – sentenças de uma ou duas palavras. ‘Qué bola’, ‘Qué bincá.’

Quando David recebeu a tríplice viral aos 18 meses, ele voltou pra casa doente. Letárgico. Quente. Com cólicas. Evitando o contato olho no olho. No dia seguinte ele era uma criança diferente. Um olhar atordoado. Não comia. Parou de fazer atividades. Nós fomos a um consultório pediátrico. Fomos informados que algumas crianças reagem desta forma e que não devíamos nos preocupar.

David não falou mais por quatro anos. Ao invés de jogar bola, sua brincadeira favorita se tornou rodopiar, qualquer coisa: pratos, rodas de bicicleta, ele mesmo. E então ele ficava apenas encarando os objetos a girar. E balançando, por horas, Se a gente tentasse tirar ele do balanço, ele fazia um escândalo. Hoje sabemos que isto se chama estereotipia.”
Leia o resto da história de David (em inglês)

Aqui vai o relato de um pediatra:
Jogando as crianças no trânsito: A verdade sobre o Autismo
Por: Kenneth Stoller, doutor em Medicina e membro da American Academy of Pediatrics, com Anne McElroy Dachel, Terça-feira, 24 de Abril de 2007
“Eu sou pediatra há mais de 20 anos. Eu vi a minha primeira criança com autismo no início dos anos 90 – eu nunca havia visto uma criança autista em todos os meus anos de faculdade. O garoto tinha 4 anos e era possível ver a frustração em seu rosto como se ele quisesse falar, mas nada inteligível saía de sua boca exceto guinchos de ansiedade”.

Seguem algumas outras doenças que compõem esta nova epidemia:

Diabetes de tipo 1, que, de acordo com os livros didáticos tem origem genética, também apresenta um crescimento misterioso nos anos recentes de aproximadamente 3% ao ano.

Lupus, antes classificada como uma doença rara, é o ataque autoimune a inúmeros tecidos corporais e hoje afeta 1,4 milhão de americanos de acordo com estimativas conservadoras, e talvez até mais que isso.

Esclerose múltipla, uma doença autoimune do sistema nervoso central, afeta 400.000 americanos e 2,5 milhões de pessoas no mundo todo. As taxas de prevalência dobraram de 1960 a 1980, e pelo menos um estudo mostra outra duplicação entre 1993 e 2002. A causa? Ninguém sabe, mas como de costume, a “suspeita é um vírus.”

A aparição da Esclerose Múltipla é ligada com alergias a alimentos, outra nova epidemia de nossa era. Quando eu perguntei a um primo pediatra qual foi a maior mudança em termos de saúde infantil que ele testemunhou em 20 anos de prática médica, ele disse que sem dúvida nenhuma é o aumento agudo das alergias e asma. Apesar de não serem doenças autoimunes, alergias são disfunções no sistema imunológico. Quando eu era criança, talvez houvesse uma criança na sala de aula que fosse “alérgica”; hoje você dificilmente ousará dar comida a uma criança sem antes perguntar a seus pais se ela não tem alguma reação alérgica. É prática sistemática perguntar “ele é alérgico a algo?”. Isto não é apenas uma questão de mais conhecimento. Um estudo do National Institute of Health (NIH) nos Estados Unidos descobriu que 54% dos americanos têm teste positivo para pelo menos um alergênico – o dobro de 30 anos atrás. Ao longo do mesmo período, as taxas de asma cresceram 74%, afetando por volta de 10% da população.

Síndrome da fadiga crônica é outra nova doença com um provável componente autoimune. Antes pouco conhecida, ela afeta hoje 1 em cada 544 pessoas nos Estados Unidos. Ela pode ser uma condição debilitante, geralmente requerendo que os pacientes durmam por 14, 16 ou até mesmo 20 horas por dia. O que causa estes suspeitos ataques autoimunes? Ninguém sabe mas, de novo, suspeita-se de “um enteovirus, retrovirus, ou o virus da herpes”.

Uma condição relacionada conhecida como fibromialgia afeta 1 em cada 74 americanos, ou 3,7 milhões com mais de 18 anos. Caracterizada por uma dor crônica no sistema locomotor, muitas vezes debilitante, fadiga e rigidez, a doença pode ou não ser autoimune em sua origem (opiniões de experts estão divididas). De qualquer forma, é uma categoria de doenças muito recente.

Doenças autoimunes da glândula tireóide constituem outra nova epidemia, afetando 1 em cada 50 americanos.

Até agora, temos sido bem sucedidos em manter uma fachada de normalidade, mesmo com pessoas cada vez mais doentes. Uma forma de se fazer isso é convencer as pessoas de que é normal estar doente. Você só precisa de seu medicamento, e pode seguir sobrevivendo. A verdade – que nós deveríamos estar vibrantemente saudáveis – é uma ameaça ao status quo. Não é pra ser assim. Mas não tenha medo, a verdade irá emergir. Ela já está irrompendo da Terra. Ao passo em que as epidemias aceleram, logo ficará inegável para todos.

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